8 de setembro de 2026
Poncha ou gin? Duas bebidas da Madeira, lado a lado
A poncha é a bebida tradicional da Madeira: aguardente de cana, mel e limão fresco, trabalhados até os três se tornarem uma coisa só. A ilha também destila o seu próprio gin seco. Não são rivais; são dois registos do mesmo lugar, e saber quando pedir qual faz parte de beber bem por cá.
A ilha bebe mais do que estas duas, claro: o vinho Madeira é famoso há séculos, a aguardente de cana é um rum com estatuto próprio, e o que beber na Madeira cobre a lista toda. Este guia pega só no par: o que é a poncha, como a ilha a bebe, e onde entra o gin da ilha ao lado dela. Ambos se fazem do que aqui cresce, e é esse o sentido dos dois.

O que é a poncha
A poncha faz-se de três coisas: aguardente de cana, mel e sumo de limão, mexidos com força com um pau de madeira estriado, o caralhinho (nalgumas casas, mexelhote), até o mel se dissolver e a bebida ficar turva e macia. Mexer não é folclore; é a técnica que faz a bebida.
E é antiga. O turismo da Madeira fá-la descender do panch, uma bebida trazida da Índia e adaptada na ilha, e a sua casa é Câmara de Lobos, onde os pescadores a bebiam contra as noites frias no mar. A versão clássica de limão ainda se chama poncha à pescador.
Como a ilha a bebe
De pé, quase sempre. A paragem clássica é uma poncharia na estrada por Câmara de Lobos ou na costa norte, onde a poncha se faz na hora e chega ao balcão com um dentinho: amendoins ou tremoços por conta da casa. Cada bar tem a sua mão com o pau, e os habituais discutem qual é a certa.
O limão é o original; o maracujá é a variante que a ilha mais adotou, com a tangerina e a hortelã atrás.
A poncha e o gin vêm do mesmo sítio
O gin da Madeira nasce da mesma lógica da poncha: usar o que a ilha dá. O Canning's Dry Gin destila-se em pequenos lotes na Ribeira Brava, mais adiante na mesma costa sul, com zimbro de montanha, plantas da floresta Laurissilva, maracujá e pitanga, e água pura das serras. Cana, mel e limão num balcão; zimbro e fruta da ilha no outro.
Os dois até partilham uma fruta. O maracujá é a variante de poncha que mais bares servem primeiro, e é um dos botânicos do gin, presente no copo ao lado da pitanga, mais viva. Peça os dois numa noite e prova a mesma ilha duas vezes, por caminhos diferentes.
Quando pedir qual
Peça poncha quando o momento é social e curto: ao balcão depois de uma levada, antes do jantar em Câmara de Lobos, sempre que houver um caralhinho à vista. É doce, forte e direta, e não finge ser outra coisa.
Peça o gin quando quiser a ilha num copo mais longo e mais seco: um gin tónico com bastante gelo, lima e hortelã, ou um dos cocktails de fruta da ilha, que se apoiam no maracujá e na pitanga como uma poncharia se apoia no mel e no limão. Um é um ritual; o outro é uma leitura mais lenta do mesmo lugar.
Pode levá-las para casa?
A poncha viaja mal, e isso faz parte do encanto. Quer limão fresco, um pau de madeira e a mão de quem está atrás do balcão. Há versões engarrafadas, mas a poncha de que se lembra foi feita à sua frente.
O gin é o contrário: destilar é a forma de a fruta da ilha entrar numa garrafa sem se perder. Uma fruta como a pitanga é demasiado frágil para viajar, por isso viaja como gin da Madeira, a 40% vol, engarrafado pela primeira vez em 2016 e provado às cegas até uma medalha de ouro do IWSC em 2018. É a ilha, fechada de maneira a poder partir.